Entre o amor e a dor: o que o Dia das Mães nos convida a acolher

 

Entre o amor e a dor, o Dia das Mães reforça um trabalho espléndido e incondicional da energia feminina no desenvolvimento da humanidade, na existência de cada um de nós. Celebrar a vida — e aquela que nos deu vida — seria, por si só, uma bela forma de viver.

Contudo, no nosso trabalho, sabemos que nem sempre é assim. Muitas vezes, mãe é apenas progenitora, e a vida psíquica passa a envolver uma procura incessante pelo amor materno. Persiste um vazio emocional que, por vezes, cobra do outro aquilo que faltou.

Em terapia, estas mulheres e homens desbravam autênticas caixas de Pandora. Com coragem, revisitam feridas antigas para ressignificar o que não tiveram — abrindo espaço para relações mais autênticas, mais livres e mais conscientes.

A celebração do Dia das Mães leva-me sempre, enquanto profissional, mãe e filha, a um lugar mais silencioso: o de acolher emocionalmente os filhos que já não têm as suas mães, e as mães que já não têm os seus filhos.

Acompanhar este luto é, muitas vezes, criar significado para aquilo que o silêncio insiste em dizer. Porque há dores que não se orientam, não se corrigem, não se apressam — apenas se testemunham.

Estas mães não "superam" os seus filhos; elas aprendem a levá-los consigo de outra forma. Reconstroem a vida com essa ausência presente, reinventando significados, criando novos rituais, habitando um mundo onde o amor continua — mas sem o corpo que o sustentava.

Modelos contemporâneos, como o dos "laços contínuos", sugerem que a adaptação ao luto não passa por "deixar ir", mas por transformar a relação com quem partiu — integrando essa presença de forma simbólica e emocional na vida que continua.

E talvez seja aí que reside um gesto profundamente construtivo: reconhecer que, mesmo nas histórias marcadas pela ausência, há possibilidade de integração, de autenticidade e de relação. Não uma felicidade idealizada, mas uma vida mais inteira — onde o amor, ainda que atravessado pela dor, continua a encontrar formas de existir.

Por Anabela Vitorino Costa, Psicóloga Clínica · CP 3780