Publicado em 24/02/2026 · Escrito por Rocío Moñino · Ler artigo original em vivelavita.com →
A sexualidade é muito mais do que um ato físico; é um reflexo de como nos vemos, como nos sentimos e como habitamos o nosso próprio corpo. Aqui trazemos as chaves desta conversa essencial para entender por que razão, às vezes, o maior bloqueio para o prazer não está no corpo — mas sim no nosso olhar.
O ponto de partida: psicologia à medida
Vivelavita pergunta
Anabela, para começar, gostaríamos de saber um pouco mais sobre si e sobre o projeto que representa.
Sou psicóloga clínica desde o ano 2000, com 26 anos de experiência. Tenho trabalhado com todas as idades, integrando diferentes formações e especializações, sendo a maior delas o próprio processo de consciencialização e autoconhecimento.
Represento a psYonline Portugal, uma plataforma que nasceu do desejo de que mais pessoas tenham acesso ao cuidado da sua saúde mental com versatilidade. Contamos com profissionais especializados em áreas que vão desde a clínica e a saúde até à educacional, organizacional e desportiva, utilizando abordagens como a TCC, a Psicanálise ou o EMDR. Os nossos pilares são a escuta, o cuidado e o acolhimento.
O mapa mental do prazer: autoimagem vs. corporalidade
Vivelavita pergunta
Muitas pessoas confundem o que veem no espelho com o que sentem. Como é que estes conceitos se relacionam na nossa sexualidade?
É importante compreender que a autoimagem é a construção mental e simbólica que a pessoa faz de si mesma, enquanto a corporalidade é a dimensão física e sensorial — o corpo em movimento. Enquanto a autoimagem é o "pensar sobre o corpo", a corporalidade é o "viver o corpo".
Definir a relação entre autoimagem e corporalidade é essencial para compreender como nos relacionamos com o prazer, com o outro e com a nossa própria identidade. No desenvolvimento de uma sexualidade plena, estes dois conceitos não são apenas paralelos, mas entrelaçam-se de forma profunda.
A autoimagem deve servir como uma base de autoconfiança, e a corporalidade deve ser explorada através do autoconhecimento, para que o indivíduo saiba o que lhe agrada antes de o partilhar com outra pessoa.
Os inimigos do desejo na consulta
Vivelavita pergunta
Quais são os complexos ou distorções da imagem corporal que encontra com maior frequência em consulta?
Em consulta, as distorções da imagem corporal que encontro com mais frequência incluem a perceção exageradamente negativa de partes específicas do corpo — por exemplo: "tenho uma barriga enorme", quando objetivamente não corresponde à realidade —, a comparação constante com padrões irreais e a crença de que o valor pessoal depende da aparência física. Também vejo muitos casos de vergonha corporal enraizada: pessoas que evitam os espelhos, a luz acesa na intimidade ou determinadas posições por medo de serem vistas.
Vivelavita pergunta
De que forma é que estes complexos atuam como "bloqueadores" reais durante o sexo?
Funcionam através de uma autoconsciência excessiva. O desejo sexual exige entrega e presença. Se estás mentalmente focado em como te avaliam, deixas de estar disponível para sentir. A mente entra em "modo vigilância", perguntando-se: Como é que eu estarei? Será que ele(a) está a reparar nisto?
A armadilha da perfeição visual
Vivelavita pergunta
Vivemos numa cultura de alta exposição visual. Como é que os atuais padrões de beleza influenciam a segurança sexual das pessoas?
Do ponto de vista psicológico, isto afeta a segurança sexual, uma vez que pode gerar insegurança com o próprio corpo, medo da rejeição e dificuldade em dizer "não" ou expressar limites. Quando o valor sexual fica ligado unicamente à aparência, a pessoa pode envolver-se em relações para satisfazer o outro, e não por escolha ou desejo próprio.
Vivelavita pergunta
Que ferramentas podemos usar para desvincular o nosso valor sexual da estética?
A psicologia propõe algumas ferramentas simples e acessíveis: compreender que os padrões de beleza são construções sociais que mudam com o tempo; questionar pensamentos como "o meu corpo define o meu valor?"; fortalecer a autoestima a partir de quem se é e não de como se parece; e aprender a respeitar o próprio corpo, os seus limites e sentimentos.
Voltar ao corpo: o papel do mindfulness
Vivelavita pergunta
Que papel desempenha a consciência corporal ou o mindfulness na capacidade de sentir prazer?
Se uma pessoa começar a ser consciente do que pensa, do que sente no seu corpo, de como se move e como age, passará a compreender a responsabilidade que tem na sua vida e na dinâmica das suas relações. A consciência corporal é absolutamente importante neste processo de autoconhecimento e na capacidade de sentir prazer. O mindfulness é uma das técnicas que pode ser utilizada para esse contacto. Quanto mais simples for a técnica, melhores serão os resultados.
Vivelavita pergunta
Como podemos começar a praticá-lo?
Prática simples de mindfulness — alguns momentos por dia
Ao realizar esta prática com consistência, chegará um momento em que, de forma natural, terá mais consciência das emoções, do corpo e dos pensamentos — e nesse instante, terá todas as possibilidades para mudar o que considerar necessário rumo a uma vida relacional mais plena e saudável.
Insegurança no casal
Vivelavita pergunta
Quando a insegurança física afeta a relação, como se pode abordar este tema com o parceiro sem que se torne um tabu ou uma fonte de maior ansiedade?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que os pensamentos automáticos e as crenças disfuncionais — como o medo da rejeição ou a sensação de não ser suficiente — podem intensificar a ansiedade. Acolher esses sentimentos e reconhecê-los é o primeiro passo para conseguir que este tema deixe de ser um tabu.
Ao falar sobre isso, é importante escolher um momento tranquilo e adotar uma comunicação afetiva e assertiva, priorizando o falar na primeira pessoa. Partilhar a insegurança como uma vulnerabilidade — e não como uma acusação — permite fortalecer a segurança emocional e o vínculo.
O corpo que habitas é suficiente
Vivelavita pergunta
Se pudesse deixar apenas uma mensagem fundamental a alguém que hoje se sente incapaz de desfrutar da sua sexualidade devido à sua autoimagem, qual seria?
Desfrutar da sexualidade não exige esconder partes de ti, mas sim reconhecer que o prazer nasce da presença, do consentimento e da relação com o outro — não da perfeição física. É sentir, explorar e conectar-te contigo e com o outro, mesmo nos dias em que o corpo parece pesado, estranho ou deformado. O prazer é uma experiência humana, diversa e imperfeita, tal como nós.
O corpo que habitas já é suficiente para começares a sentir. 💗
Se te sentiste identificada com estes bloqueios, lembra-te que não tens de percorrer este caminho sozinha.
A equipa da psYonline® está pronta para te apoiar — sem estigmas, sem julgamentos, ao teu ritmo.
Psicólogas entrevistadas neste artigo
Anabela Vitorino Costa
CP 3780
Psicologia Clínica · Abordagem Integrativa
Tereza Cristina
CRP 01/27842
EMDR · TCC · Transpessoal · Mindfulness
Maria Paiva
Psicóloga · Coach · Mediadora
Psicologia Educacional · Relações Familiares
Iraci Ferreira
CRP 02/27387
TCC · Saúde da Mulher
Alessandra Fraga do Nascimento
CRP 05/41711
TCC · Psicologia Cognitivo-Comportamental
Teresa Moreira
CP 15077
Psicologia Clínica · Sexologia · Igualdade de Género