Saúde mental no trabalho

Artigo · Trabalho e Organizações

Saúde mental no trabalho: o que o relatório da Ordem dos Psicólogos diz sobre os teus dias

Anabela Vitorino Costa · Psicóloga · OPP 3780 · Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde

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Anabela Vitorino Costa · Psicóloga
OPP 3780 · Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde
psYonline® Portugal

Na quinta-feira passada saiu a terceira edição do relatório «Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações», da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Os jornais pegaram no número grande: o stresse e os problemas de saúde psicológica podem custar às empresas portuguesas até 13,3 mil milhões de euros por ano. A conta por hora que correu nas notícias, 1,5 milhões, é dos jornalistas; o relatório apresenta o total.

Esse número conta, e conta muito: é o que faz uma administração parar para olhar, e é por isso que fui ler o relatório todo. Conta tanto como aquilo que está dentro dele — e o que está dentro dele são semanas como a tua.

A maior parte da conta é de quem vai trabalhar

Daqueles 13,3 mil milhões, cerca de 4,4 vêm de faltas. Os outros 8,9 vêm de outra coisa, que tem um nome técnico feio — presentismo — e uma tradução simples: pessoas que estão no posto de trabalho e não conseguem fazer o que sabem fazer.

Dois terços do problema, portanto, não se vê na folha de presenças. Vê-se no email lido quatro vezes, na reunião de que não ficou nada, no erro numa tarefa que a pessoa faz há quinze anos. Quem está assim não está a fazer corpo mole. Está a gastar toda a energia a manter-se de pé e já não lhe sobra para o trabalho.

Se te reconheces nisto, repara no que isso quer dizer: o teu cansaço não é falta de carácter. É o fenómeno mais caro que existe no trabalho português, e tem nome e estudo.

Em dias, dá o quê?

A Ordem traduz a perda em tempo. Por cada trabalhador, a estimativa aponta para 13,5 dias de faltas por ano atribuíveis ao stresse — metade de todas as faltas por doença — mais 27 dias de presença sem rendimento. Quarenta e meio ao todo.

Dois cuidados, para sermos honestos com o estudo: os dias de presentismo não são contados, são estimados no dobro das faltas, seguindo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho; e isto é uma média calculada para o conjunto dos trabalhadores, não a conta de cada pessoa. Mesmo assim, o movimento é o que assusta: em 2020, pela mesma conta, eram 6,2 dias de faltas e 12,4 de presentismo, 18,6 ao todo.

Quarenta dias são oito semanas de trabalho. Oito semanas da tua vida por ano em que estás presente e não estás.

E se trabalhas no Estado, nem sequer estás na conta

O relatório exclui expressamente a Administração Pública e a Defesa. Quem atende ao balcão de uma câmara, quem dá aulas, quem faz turnos num hospital público ou quem anda na recolha de resíduos às seis da manhã não entra nestes números. O desgaste existe igual; só não foi contabilizado.

Porque é que isto cai sempre em cima da pessoa

Há uma coisa no relatório que quase não foi citada: a primeira recomendação às organizações é alargar o número de psicólogos do trabalho nas empresas. Quer dizer que a resposta não é cada um aguentar melhor — é haver resposta montada. Enquanto não houver, e na maior parte das casas portuguesas não há, sobra a pessoa: aguenta até às férias, aguenta até ao fim do projeto.

Aguentar não é tratar. É adiar com juros.

O que faz diferença, na prática

A primeira coisa que muda em consulta não é a empresa: é a pessoa deixar de achar que o problema é ela ser fraca. A partir daí dá-se trabalho útil — recuperar sono, dizer uma frase difícil sem ficar três dias a tremer, e separar o que é teu do que é da casa.

E há uma parte prática que no trabalho faz toda a diferença: a consulta tem de caber no horário de quem trabalha. Quem sai às dez da noite, quem entra às seis da manhã, quem faz turnos rotativos — essa pessoa não marca nada em horário de gabinete. Foi por isso que a psYonline® existe como existe: por vídeo ou só por escrito, à noite e ao fim de semana, sem deslocação e sem ter de explicar nada a ninguém para marcar.

Perguntas que me fazem sobre isto

Isto é stresse normal ou é mais do que isso?

Olha para o tempo e para o alcance. Duas semanas más depois de um mês difícil é a vida. Dois meses em que dormes mal, perdes a paciência em casa e começas a errar em coisas que sabes de cor já não é só o trabalho a correr mal: é saúde.

A minha empresa vai saber que fui a uma consulta?

Não. Quando é a pessoa a marcar, não há nada a comunicar a ninguém. E nas organizações que trabalham com a psYonline®, a empresa recebe apenas números de utilização, sem nomes — nunca quem foi, nunca o que se disse.

Uma última coisa, honesta: uma consulta não muda uma chefia, não muda um horário e não muda um salário. Muda o que isso te está a fazer, e quanto disso levas para casa. Às vezes é o suficiente para o resto também começar a mexer.

Se te reconheceste em três ou quatro parágrafos deste texto, não é coincidência. É o teu corpo a dizer-te há meses o que o relatório acabou de dizer em números.

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Anabela Vitorino Costa

Psicóloga · OPP 3780 · Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde

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