Existe uma expectativa quase universal de que as férias sejam sinônimo de descanso, leveza e renovação. Quando elas terminam, espera-se que voltemos revigorados, cheios de energia e prontos para recomeçar. Mas essa não é a realidade de muitas pessoas.
Há quem passe as férias ansiando pelo retorno à rotina. Há quem se sinta culpado por não conseguir relaxar. Há quem perceba que, mesmo longe do trabalho, a mente continua acelerada, ocupada com preocupações, cobranças e listas intermináveis de tarefas. E há aqueles que simplesmente não gostam de ter férias.
Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, isso faz sentido. O descanso não depende apenas da ausência de compromissos. Ele também está relacionado à forma como interpretamos esse tempo livre e aos padrões de pensamento que carregamos conosco.
Pessoas que acreditam que precisam estar sempre produzindo podem experimentar as férias como uma ameaça, e não como um privilégio. Quando a produtividade se torna um critério de valor pessoal, desacelerar pode despertar culpa, inquietação ou a sensação de estar desperdiçando tempo. Outras pessoas encontram tanta previsibilidade e segurança na rotina que qualquer interrupção gera desconforto.
Também é comum criar expectativas irreais sobre esse período: "preciso aproveitar cada minuto", "tenho que descansar completamente", "essas férias precisam compensar todo o cansaço do ano". Quando a realidade não corresponde a essas exigências, surgem frustração e autocrítica.
Talvez a pergunta mais importante não seja se você conseguiu descansar nas férias, mas o que dificultou esse descanso. O que sua mente dizia quando você tentava parar? Quais regras internas impediam você de simplesmente existir, sem a obrigação de produzir ou corresponder a um ideal?
Agosto costuma simbolizar recomeços. E talvez esse seja um bom momento para refletir que descansar também é uma habilidade a ser desenvolvida. Nem sempre sabemos fazê-lo porque nunca aprendemos. Em uma cultura que valoriza o excesso de produtividade, muitas pessoas desaprendem a reconhecer os próprios limites.
Na TCC, entendemos que identificar pensamentos automáticos, flexibilizar crenças rígidas e construir comportamentos mais coerentes com nossos valores pode transformar não apenas a forma como trabalhamos, mas também a maneira como descansamos.
Se agosto "não caiu a gosto" para você, talvez o problema não tenha sido o mês, nem as férias. Talvez tenha sido o peso das exigências que você levou junto na bagagem.
E essa é uma reflexão que vale muito mais do que apenas para o período de férias: cuidar da saúde mental também significa aprender que descansar não é perder tempo. É criar condições para viver com mais equilíbrio, presença e qualidade de vida.
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Alessandra Fraga do Nascimento · Psicóloga
CRP 05/41711
Terapia Cognitivo-Comportamental · Ansiedade · Burnout · Depressão · Autoestima
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