As férias terminam. A mala é desfeita, as fotografias ficam guardadas no telemóvel, o despertador volta a tocar e, pouco a pouco, a rotina começa novamente.
Mas existe uma pergunta que talvez seja mais importante do que quando é que eu volto ao trabalho?
Como é que eu estou a voltar para a minha vida?
Porque regressar das férias não deveria significar apenas retomar horários, compromissos, responsabilidades e exigências. O regresso também pode ser um convite para olhar para nós e perceber o que esse período de pausa revelou.
Talvez tenhas percebido que estavas mais cansado do que imaginavas. Talvez tenhas descoberto que sentes falta de coisas que a rotina não permite viver. Talvez tenhas percebido que estavas a funcionar no automático. Ou talvez tenhas experimentado, durante alguns dias, uma versão de ti que há muito tempo não encontravas.
E o interessante é que o regresso não acontece da mesma maneira para todos.
Para quem trabalha numa empresa
Depois de dias de descanso, voltar às reuniões, aos prazos, às exigências, ao trânsito, às metas e às responsabilidades pode provocar uma verdadeira mudança emocional. É possível sentir dificuldade de concentração, irritação, desânimo ou até aquela sensação de «eu não queria voltar».
E isso não significa necessariamente que não gostas do teu trabalho. Às vezes, significa apenas que o corpo e a mente experimentaram uma pausa e agora estão a perceber o quanto estavam sobrecarregados antes dela.
Talvez seja importante perguntar:
O que é que as minhas férias me mostraram sobre a forma como estou a viver o meu trabalho?
Para quem cuida da casa e da família
Nem todo o regresso acontece diante de um computador ou dentro de um escritório.
Para muitas pessoas, especialmente donas de casa e pessoas que assumem grande parte dos cuidados familiares, as férias significam uma casa mais movimentada, crianças presentes, visitas, encontros e uma rotina diferente. E então chega o regresso. As crianças voltam para a escola. Os familiares voltam para as suas casas. A casa volta ao silêncio.
E aquele silêncio, que para alguns pode representar descanso, para outros pode trazer solidão, vazio e até uma sensação de inutilidade.
É preciso lembrar que cuidar da casa e da família também é uma forma de trabalho, embora muitas vezes não seja reconhecida como tal.
E quando a rotina muda, algumas pessoas podem perguntar-se:
E agora, o que é que eu faço comigo?
Esta também é uma questão de saúde mental que muitos ignoram.
Para avós e pessoas reformadas
Durante as férias, a casa pode ficar cheia. Os netos chegam, a família visita, existe barulho, movimento, refeições partilhadas, brincadeiras e histórias.
De repente, as férias terminam. As crianças regressam à escola. Os filhos voltam para as suas rotinas. E a casa fica silenciosa novamente.
Para algumas pessoas, este momento pode despertar sentimentos de saudade, vazio e tristeza. Não porque exista algo errado em estar sozinho, mas porque uma mudança brusca na rotina pode evidenciar uma falta que antes estava temporariamente preenchida pela presença dos outros.
E talvez este seja um momento importante para pensar:
O que existe na minha vida para além do meu papel de mãe, pai, avó ou avô?
- Quais são os meus projetos?
- O que me dá prazer?
- O que é que eu ainda quero experimentar?
Porque envelhecer não deveria significar deixar de construir novos sentidos para a própria vida.
E para as crianças?
Para elas, o regresso também pode ser desafiante. Depois de dias de liberdade, brincadeiras, horários diferentes e maior convivência com a família, voltar para a escola significa novamente acordar cedo, cumprir horários, estudar, realizar atividades, lidar com regras e reencontrar colegas.
Algumas crianças regressam felizes. Outras podem apresentar irritação, ansiedade, dificuldade em adormecer, resistência em ir à escola ou mudanças no comportamento. E, nesse momento, mais do que interpretar tudo como birra, é importante escutar.
O que é que esta criança está a tentar comunicar através do seu comportamento?
A adaptação à rotina também é um processo emocional. E o mesmo vale para os adolescentes, que podem viver o regresso às aulas acompanhado de preocupações com o desempenho, as relações sociais, as exigências e as expectativas.
Mas afinal, o que é que a TCC nos ensina sobre tudo isto?
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, uma das ideias centrais desenvolvidas por Aaron Beck é que não são apenas os acontecimentos que influenciam as nossas emoções, mas também a maneira como os interpretamos. Ou seja: perante uma mesma situação, duas pessoas podem ter pensamentos diferentes e, consequentemente, experimentar emoções e comportamentos diferentes.
O regresso das férias é um bom exemplo disso. Para alguém, voltar ao trabalho pode significar:
«Acabou o meu descanso. Agora começa tudo de novo. Eu não vou conseguir dar conta.»
Para outra pessoa, o pensamento pode ser:
«Estou a voltar à minha rotina. Vou precisar de me reorganizar, mas posso fazê-lo aos poucos.»
A situação é semelhante. A interpretação é diferente. E essa interpretação pode influenciar diretamente a maneira como nos sentimos e como iremos agir.
É por isso que, na TCC, trabalhamos também a identificação e a reestruturação de pensamentos automáticos que podem estar a contribuir para o sofrimento emocional. Talvez o regresso das férias seja justamente uma oportunidade para observar que pensamentos aparecem quando olhas para a tua rotina.
O que dizes a ti mesmo quando o despertador toca? O que pensas quando tens de voltar ao trabalho? O que sentes quando a casa fica vazia novamente? Que pensamentos surgem quando as crianças regressam à escola?
Estas respostas dizem muito sobre a maneira como estamos a viver. E algumas delas precisam de ser questionadas por nós:
«Eu preciso de dar conta de tudo.»
«Não posso parar.»
«Preciso de ser produtivo o tempo inteiro.»
«Depois cuido de mim.»
«Eu não tenho tempo para mim.»
«A minha vida é só cuidar dos outros.»
Estes pensamentos, quando se tornam rígidos e recorrentes, podem contribuir para ciclos de stress, culpa, ansiedade e exaustão. Por isso, talvez o regresso das férias seja um bom momento para fazer diferente.
Não precisas de voltar sendo exatamente a mesma pessoa que saiu.
Podes voltar mais consciente dos teus limites. Podes reorganizar prioridades. Podes aprender a dizer não. Podes perceber que descansar não é perder tempo. Podes entender que cuidar da saúde mental não deve acontecer somente quando tudo desmorona. E, principalmente, podes começar a questionar:
A vida para a qual estou a voltar é realmente a vida que quero continuar a viver?
Talvez esta seja a grande oportunidade escondida no fim das férias. Não apenas voltar à rotina, mas reavaliar a rotina. Não apenas voltar ao trabalho, mas perceber como o trabalho está a ocupar espaço na tua vida. Não apenas voltar a cuidar dos outros, mas lembrar que também tu precisas de ser cuidado. Não apenas voltar a uma casa silenciosa, mas descobrir o que pode preencher esse espaço com novos sentidos. Não apenas mandar as crianças de volta para a escola, mas ajudá-las a compreender e a expressar o que sentem perante as mudanças.
Nem sempre precisamos de mudar tudo. Às vezes, precisamos apenas de começar a fazer pequenas mudanças na maneira como pensamos, sentimos e nos relacionamos com a nossa própria vida.
As férias acabam. Mas o cuidado contigo não precisa de acabar com elas.
Que este regresso não seja apenas uma volta à rotina. Que seja uma oportunidade de voltares a ti.
E se, neste regresso, perceberes que está difícil organizar os pensamentos, lidar com as emoções, estabelecer limites, adaptar-te às mudanças ou simplesmente entender o que está a acontecer dentro de ti, procurar acompanhamento psicológico também pode ser um caminho.
Estou disponível para consultas de psicologia, fazendo parte desta equipa de profissionais da psYonline® que te podem acolher e acompanhar neste processo.
Porque, às vezes, não precisamos de mais férias. Precisamos de aprender a construir uma vida da qual não sintamos tanta necessidade de fugir para conseguir descansar.
Lembra-te: cuidar da mente também é uma forma de cuidar da vida.