Quando a alma se cala: a solidão que ninguém vê

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Quando a alma se cala: a solidão que ninguém vê

Nem toda a solidão é ausência de pessoas. Às vezes, ela é a ausência de si mesmo.

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Psicóloga Alessandra Fraga do Nascimento
CRP 05/41711 · Terapia Cognitivo-Comportamental · Ver perfil

Nem toda a solidão é ausência de pessoas. Às vezes, ela é a ausência de si mesmo.

Existe uma pergunta que escuto com frequência no consultório:

«Porque é que me sinto tão sozinha, se estou rodeada de pessoas?»

Talvez essa seja uma das dores mais silenciosas da existência humana. A solidão nem sempre mora numa casa vazia. Ela pode morar num casamento, numa empresa cheia de colegas, numa família amorosa, numa sala de aula, numa gravidez desejada ou até mesmo numa roda de amigos onde todos riem, enquanto alguém sorri apenas para não precisar de explicar o que sente.

Vivemos num tempo de ligações instantâneas, mas de vínculos cada vez mais frágeis. Falamos muito, partilhamos muito, aparecemos muito… e, ainda assim, muitas pessoas carregam a sensação de não serem verdadeiramente vistas.

A pior solidão não é estar sozinho. É sentir que ninguém alcança quem tu realmente és.

Quando o silêncio parece mais seguro que a palavra

Há pessoas que deixam de sair de casa. Outras continuam a sair, a trabalhar, a cuidar dos filhos, a responder a mensagens e a cumprir todas as suas responsabilidades. Por fora, parecem funcionar perfeitamente. Por dentro, vivem uma espécie de exílio emocional.

Elas respondem «está tudo bem» quase automaticamente. Não porque esteja. Mas porque acreditam que ninguém compreenderia a verdade.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental aprendemos que as nossas emoções não nascem apenas dos acontecimentos, mas principalmente da maneira como interpretamos aquilo que vivemos. Aaron Beck, precursor da TCC, demonstrou que os pensamentos automáticos moldam as nossas emoções e os nossos comportamentos diariamente.

E quando esses pensamentos dizem repetidamente…

«Vou incomodar.»
«Ninguém se importa realmente.»
«É melhor guardar isso para mim.»

O silêncio, para eles, passa a parecer um lugar seguro.

O problema é que aquilo que nos protege por um instante pode aprisionar-nos por muito tempo. Desta forma, é importante entendermos o que significa solidão e solitude: duas experiências completamente diferentes. É importante fazer uma distinção delicada.

✔️ A solitude é um encontro consigo. É quando escolhemos estar sozinhos para descansar, refletir, ler um livro, caminhar ou simplesmente respirar. Ela fortalece a nossa identidade.

✔️ A solidão, porém, é uma experiência de desconexão. Ela acontece quando existe uma distância entre o vínculo que desejamos viver e aquele que conseguimos experimentar. Por isso, alguém pode morar sozinho e sentir paz, enquanto outra pessoa pode dividir a mesma cama com quem ama e sentir um vazio impossível de explicar.

Não é a quantidade de pessoas à nossa volta que define a nossa saúde emocional. É a qualidade da ligação. Destacar os muitos rostos da solidão leva-nos a olhar mais a respeito desses cenários que às vezes nem percebemos.

✔️ A solidão no relacionamento

Existe uma imagem muito bonita sobre o amor: duas pessoas a caminhar lado a lado. Mas caminhar ao lado não significa, necessariamente, caminhar junto.

Muitos casais deixam de conversar sobre sentimentos e passam a conversar apenas sobre tarefas. A relação continua a existir, mas a intimidade emocional vai desaparecendo. É quando um dos dois pensa:

«Se eu falar, não vai adiantar.»

E, pouco a pouco, deixa de partilhar os seus medos, as suas dores e até as suas alegrias.

A distância emocional raramente começa com uma grande discussão. Ela costuma nascer de pequenos silêncios repetidos.

✔️ A solidão da gravidez e do pós-parto

Há uma romantização enorme da maternidade.

Fala-se do enxoval, do chá de bebé, do parto, da primeira fotografia. Mas pouco se fala da mulher que, muitas vezes, sente medo de não dar conta. Pouco se pergunta como está aquela mãe que passa noites acordada, cujo corpo mudou, cuja identidade também mudou e que, frequentemente, ouve perguntas sobre o bebé, mas quase nunca sobre si.

A solidão materna existe. E reconhecer isso não diminui o amor de uma mãe pelo seu filho. Apenas humaniza uma experiência profundamente transformadora.

✔️ Quando mudar de cidade ou de país também significa perder o chão

Mudar de cidade ou de país costuma ser celebrado como um recomeço. Mas todo o recomeço carrega um luto invisível. Sentimos falta da família, dos amigos, do cheiro da comida, das ruas conhecidas, do sotaque e até da padaria da esquina. De repente, percebemos que pertencíamos muito mais àqueles pequenos detalhes do que imaginávamos.

É comum surgir a sensação: «Parece que já não pertenço a lado nenhum.» E isso não é fraqueza. É uma resposta humana perante a perda das referências que sustentavam a nossa identidade.

✔️ A adolescência e o medo de não caber

Mudar de escola pode parecer simples para um adulto. Para um adolescente, pode representar a reconstrução inteira de quem ele acredita ser. Novos colegas, novos grupos, novas regras sociais. Cada olhar parece um julgamento. Cada comparação fortalece dúvidas sobre o próprio valor.

É justamente nessa fase que muitas crenças começam a ser construídas:

«Não sou interessante.»
«Nunca vou ser aceite.»
«Há alguma coisa de errado comigo.»

Na TCC chamamos a essas ideias crenças centrais: interpretações profundas sobre quem somos, desenvolvidas ao longo da vida e que passam a influenciar as nossas relações, a nossa autoestima e as nossas escolhas.

➡️ Como a solidão muda a nossa forma de viver

A solidão não chega de uma única vez. Ela costuma ser silenciosa. Primeiro deixamos de responder a uma mensagem. Depois recusamos um convite. Mais tarde deixamos de contar como foi o nosso dia. Em seguida, começamos a acreditar que a nossa ausência não faria diferença.

Esse é um dos ciclos mais importantes observados pela Terapia Cognitivo-Comportamental: os pensamentos geram emoções, as emoções influenciam comportamentos e os comportamentos acabam por confirmar os próprios pensamentos.

Quanto menos nos ligamos aos outros, menos oportunidades temos de descobrir que talvez existam pessoas dispostas a acolher-nos.

O isolamento oferece alívio imediato. Mas cobra, lentamente, o preço dos vínculos perdidos. Por isso é importante observarmos a solidão que ninguém percebe. Talvez conheças alguém assim.

A pessoa trabalha.
Sorri.
Publica fotografias.
Cumpre horários.
Parece forte o tempo inteiro.

Mas chega a casa e sente um vazio difícil de nomear. Nem sempre a tristeza chora. Às vezes, ela produz. Às vezes, ela cuida de todos. Às vezes, ela faz piadas. E justamente por isso passa despercebida.

Como psicóloga, acredito que uma das perguntas mais potentes não seja «Estás bem?». Mas sim:

«Sentes que podes ser tu mesmo ao pé de alguém?»

Porque a pertença não é ser aceite pela versão perfeita de nós. É descobrir que a nossa vulnerabilidade também merece amor. É nesse momento que começamos a refletir sobre a necessidade de pedir ajuda. Refletir sobre um caminho de volta que começa com um vínculo.

A boa notícia é que a solidão não precisa de ser um destino. Ela é uma experiência, e as experiências podem ser transformadas.

A psicoterapia oferece um espaço onde não é preciso fingir força, esconder lágrimas ou encontrar as palavras perfeitas. Um espaço em que os pensamentos automáticos são compreendidos, as crenças são ressignificadas e novos modos de nos relacionarmos connosco e com o outro podem ser construídos.

Não procuramos formar pessoas rodeadas de gente. Procuramos ajudar as pessoas a criarem «relações verdadeiras».

E isso começa, muitas vezes, pela relação consigo mesma.

Na psYonline®, acreditamos que cada história merece ser escutada com respeito, ciência e humanidade. Eu atuo com base na Terapia Cognitivo-Comportamental, oferecendo um cuidado acolhedor para adolescentes, adultos e casais, respeitando sempre a singularidade de cada trajetória.

Se, ao longo desta leitura, te reconheceste em algum trecho, fica a saber uma coisa: não és fraco por sentires solidão. És humano. E nenhum ser humano deveria atravessar a sua dor a acreditar que precisa de a carregar sozinho.

Às vezes, o primeiro vínculo que transforma uma vida nasce no momento em que alguém encontra coragem para dizer: «Eu não estou bem.»

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