Quem cuida, acompanha e ama alguém com uma perturbação mental também pode adoecer emocionalmente. E falar sobre isso não é falta de amor.
Quando falamos sobre saúde mental, geralmente dirigimos a nossa atenção para quem apresenta o sofrimento psíquico. Falamos sobre ansiedade, depressão, perturbações da personalidade, bipolaridade, compulsões, dependências e tantas outras condições.
Mas existe um outro lado desta história que também precisa de ser visto.
- A pessoa que convive com quem está doente.
- O companheiro que tenta compreender as mudanças de humor.
- A mãe que passa noites preocupada.
- O filho que assume responsabilidades que não deveriam ser suas.
- O irmão que está sempre a tentar evitar conflitos.
- A pessoa que aprende a escolher cuidadosamente cada palavra para não desencadear uma crise.
Muitas vezes, este familiar começa a viver em estado de alerta. "Será que fiz alguma coisa?" Esta pergunta pode tornar-se frequente. Porque, na tentativa de ajudar, a pessoa começa a monitorizar o comportamento do outro, a antecipar possíveis crises, a adaptar a sua própria rotina e a assumir responsabilidades que não são necessariamente suas.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, podemos observar como determinados pensamentos influenciam diretamente as nossas emoções e comportamentos. Pensamentos como:
- "Preciso de estar sempre disponível."
- "Se eu colocar limites, vou piorar a situação."
- "Devia conseguir ajudar mais."
- "Se algo acontecer, a culpa será minha."
- "Preciso de cuidar dele/dela antes de cuidar de mim."
Podem produzir culpa, medo, ansiedade e exaustão. E, perante estas emoções, a pessoa pode começar a evitar conflitos, abandonar atividades pessoais, deixar de expressar as suas necessidades ou assumir o papel de cuidador a tempo inteiro.
Amar não significa ser responsável por tudo.
Esta talvez seja uma das aprendizagens mais difíceis para quem convive com alguém em sofrimento psíquico. Pode amar alguém profundamente e, ainda assim, não ser responsável pela saúde mental dessa pessoa. Apoiar não significa controlar. Compreender não significa aceitar qualquer comportamento. Ter empatia não significa abdicar dos próprios limites. E cuidar do outro não deveria significar desaparecer de si mesmo. É possível estar ao lado de alguém e, ao mesmo tempo, reconhecer: "Eu também tenho necessidades, limites, sentimentos e uma vida que precisa de ser cuidada."
Vale a pena refletir quando o familiar começa a adoecer também
Nem sempre o sofrimento aparece de forma evidente. Às vezes surge como irritabilidade, dificuldade em dormir, ansiedade, culpa, sensação constante de responsabilidade, isolamento, perda de prazer nas atividades ou uma sensação de estar emocionalmente esgotado. A pessoa pode até pensar: "Não posso queixar-me. Quem sofre é ele/ela."
Mas o sofrimento não precisa de ser uma competição. Reconhecer a própria dor não diminui a dor do outro. Pelo contrário: cuidar da própria saúde mental pode ajudar a construir uma relação mais saudável, realista e sustentável.
O que pode ser trabalhado na terapia?
Na TCC, o processo pode ajudar esta pessoa a identificar pensamentos automáticos, compreender padrões de comportamento e desenvolver estratégias mais funcionais para lidar com a situação. Isto pode gerar mais entendimentos, como:
- reconhecer o que está sob o seu controlo e o que não está;
- identificar pensamentos de culpa e de responsabilidade excessiva;
- aprender a estabelecer limites;
- desenvolver uma comunicação mais assertiva;
- diminuir comportamentos de vigilância e controlo;
- retomar atividades e vínculos importantes;
- aprender a lidar com emoções difíceis sem se abandonar;
- construir uma rede de apoio;
- compreender que o autocuidado não é egoísmo.
Porque existe uma diferença importante entre estar disponível para alguém e viver em função de alguém. Talvez a pergunta não seja apenas: "Como posso ajudar quem está a sofrer?" Mas também: "Como posso estar ao lado desta pessoa sem deixar de cuidar de mim?" Esta pergunta pode abrir espaço para uma forma diferente de amar: uma forma que reconhece o sofrimento do outro, mas também reconhece a própria existência.
Cuidar de alguém não deveria exigir que deixasse de existir.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que não são apenas as situações que influenciam a forma como nos sentimos, mas também a maneira como interpretamos aquilo que estamos a viver. Aaron Beck, um dos fundadores da TCC, demonstrou a importância dos pensamentos e das interpretações na forma como respondemos emocionalmente às situações.
Quando um familiar pensa "preciso de resolver isto", "se me afastar, algo mau pode acontecer" ou "sou responsável pelo bem-estar desta pessoa", estas interpretações podem aumentar sentimentos de culpa, medo e ansiedade e levar a comportamentos de vigilância, controlo ou anulação das próprias necessidades. Por isso, cuidar da saúde mental de quem está ao lado também significa olhar para estas crenças, questioná-las e construir formas mais equilibradas de lidar com a realidade.
Como nos ensina a TCC, mudar a forma de interpretar uma situação pode abrir espaço para respostas emocionais e comportamentais mais saudáveis. Cuidar de alguém não deveria exigir que deixasse de cuidar de si.
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Psicóloga Alessandra
CRP 05/41711
Terapia Cognitivo-Comportamental · Ansiedade · Burnout · Depressão · Autoestima
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